Segunda-feira, 12 de Maio de 2008

playlist.

[#1]
scarlett johansson, i wish i was in new orleans
atlas sound, a ghost story
atlas sound, quarantined
atlas sound, cold as ice
panda bear, comfy in nautica
black kids, hurricane jane
deerhoof, choco fight
m83, couleurs
white williams, headlines
white williams, going down
white williams, smoke
mgmt, electric feel
no age, cappo
telepathe, blind mouths

[#2]
agf, words are useless
agf, dread in strangers eyes
agf, mohr und die raben von london
loco dice, breakfast at nina's
booka shade, karma car
holy fuck, choppers
the roots, the pow wow
the roots, lost desire [feat. talib kweli]
the roots, the show [feat. common]
m.i.a., paper planes [dfa's remix]
santogold, you'll find a way [switch's remix]
chaz jankel, whisper

[http://origamiruc.blogspot.com].

Terça-feira, 6 de Maio de 2008

cine-clube de coimbra.



trata-se de um meu projecto antigo que, finalmente, vai
começar a desenvolver-se, isto é, a distinta fundação de
um cine-clube na cidade de coimbra, cuja actividade deverá focar-se em três ramos essenciais: organização regular de ciclos de cinema clássico (de preferência em colaboração
com a cinemateca de lisboa, no âmbito d'um tal processo de
descentralização do respectivo espólio que, não por acaso,
o novo vice-director, pedro mexia, tenderá a implementar, nomeadamente através da propalada criação de um novo pólo
de actividade da cinemateca na cidade do porto) e de cinema autoral contemporâneo; produção própria de uma publicação, formato-magazine, dedicada ao cinema, com um forte pendor ensaístico, crítico & literário; criação, e sua constante actualização, de um blog que sirva de complemento dinâmico
à dita publicação em papel, a par da sua função essencial
de divulgação das actividades levadas a cabo pelo cine-clube
de coimbra. numa fase posterior, há também a possibilidade
de criar um programa radiofónico semanal, e organizar noites
temáticas em espaços nocturnos da cidade, só dependendo dos
recursos humanos de que o cine-clube venha a dispor. enfim,
se amas obsessivamente o cinema e sobrevives presentemente
em coimbra, ou meros arrabaldes, junta-te a nós neste muito
aliciante projecto, contactando-me através do endereço...

gsampaio@hotmail.com

saudações cinéfilas!

neo-realismo italiano.


["umberto d.", 1952, vittorio de sica]. *****




["ladri di biciclette", 1948, vittorio de sica]. *****

caminho p/ a decepção...

«one obvious effect of the democrats' interminable contest, especially if it goes all the way to the party's denver convention in august, is to improve the election chances of john mccain. in fact, the pennsylvania result was the best the Republicans could have hoped for. hillary clinton did just well enough to stay in the race, but not so well as to start swinging it the other way. mccain's campaign managers will be rubbing their hands in glee.

now, the very election of a president mccain would already
be a disappointment for a world fascinated by barack obama. there would be a sense of plus ça change, and weary jokes about mcbush. mccain, unlike george w. bush, has a biography that commands respect. i defy anyone not to be moved by the passages in his memoir, 'faith of my fathers', which recall his captivity and torture in vietnam. for republicans to describe him as an authentic american hero is, of course, political marketing; but it also happens to be true.»

[timothy garton ash, in "the guardian"].

sessão da madrugada.


["a scanner darkly", 2006, richard linklater]. ***

Segunda-feira, 5 de Maio de 2008

playlist.

[#1]
the funkees, akula owu onyeara
mono mono, eme kowa iasa
the tony benson sextet, ugali
mulatu astatke, yegelle tezeta
damon albarn, dezert
the lions, jungle struttin'
orgone, who knows who
jamie lidell, figured me out
neon neon, swear shop
antipop consortium, bubblz
arrested development, raining revolution
sa-ra creative partners, glorious

[#2]
madonna, candy shop
new young pony club, ice cream
foals, the french open
foals, like swimming
soft cell, so (extended version)
pylon, gravity
john foxx, metal beat
flash & the pan, walking in the rain
animal collective, leaf house
zombie zombie, texas rangers
bruno pronsato, same faces, different names

[http://origamiruc.blogspot.com].

Domingo, 4 de Maio de 2008

culture'jammer.


[http://www.adbusters.org].

metamorfose verbal.

não sei se o ricardo saló ouve os meus programas na ruc, mas o que é certo é que na mesma semana em que eu fiz referência, on air, ao cariz ultra-subjectivo, por vezes até delirante, das suas críticas de discos - salvaguardando, no entanto, a excelência da sua capacidade selectiva, plena de bom gosto,
e nada preconceituosa -, deparo-me com uma sua crítica, nas páginas do suplemento "actual", tão invulgarmente objectiva, linear, diria até que, pasme-se, informativa. estou de tal modo estarrecido com esta metamorfose verbal que até faço questão de transcrever o cativante textinho em causa...



«nem só de fela kuti vivia a nigéria. de resto, ninguém iria pensar que a odisseia do afro beat tivesse sido obra de uma só pessoa, por muito genial que ela fosse. mas, na verdade, era-o, apenas tendo paralelo em visionários do chamado mundo ocidental, como james brown, curtis mayfield, sly stone. e a circunstância de ter aliado ao fulgor espiritual um carisma único - enquanto fazia recair sobre si um tão justo papel de liderança - relegou para plano discreto uma galeria de bravos sem os quais não teria existido um paraíso modernista onde, ainda hoje, europa e américa vão beber. tal é a história que este notável cd duplo ilustra em duas horas de inebriantes variações de um vergo antigo em busca do seu tempo futuro.
e talvez resida aqui a lição desta tal áfrica: o desejo de preservação do património tradicional nunca passou pelo seu regresso a uma expressão antiga, mas pela descoberta de um contexto estético (bebido na pop, no jazz, no funk e na ilha de cuba) capaz de renovar essa identidade. a banda sonora do renascimento da fé nacional depois da guerra do biafra pelo sopro do engenho, da aventura, do prazer de tocar em grupo.»

tele-mediocridade.


[guy debord].

sociedade-espectáculo.

«os serviços de notícias dos três canais ditos generalistas,
sem excepção, são cada vez mais divertimento e espectáculo
e cada vez menos informação. desapareceram os comentários
inteligentes e informados. foram-se os especialistas que
podem ajudar a compreender. acabou o recurso a documentação
e arquivo que permita então colocar os factos em contexto
e percebê-los melhor. a explicação serena e fundamentada
foi abolida. as notícias internacionais, quando há, foram
resumidas a rumores e resumos incompreensíveis, a não ser
que se trate de terrorismo, pedofilia ou grande desastre.
as notícias deixaram de ter o tempo necessário de reflexão.
os jornalistas fazem cada vez menos e 'edição' das 'peças',
das imagens e das reportagens dos 'enviados' e então 'metem
os brutos', isto é, põem no ar as sequências em bruto, tal
como chegaram dos 'enviados' ou das agências.

o 'directo' é o maior incentivo à preguiça que se conhece.
dispensa trabalho e reflexão. não precisa de inteligência
ou estudo. é o que existe de melhor como veículo de emoções,
até de histerismo. é enfim o factor de mutação da notícia em
espectáculo. é a autorização para não pensar nem investigar.
é a troca deliberada, feita por editores e por jornalistas,
de reflexão, do estudo, da investigação e da edição, todo
este trabalho que deveriam ser os pergaminhos do jornalismo,
pela aparência do imediato, do espectáculo, da concorrência
entre canais, do despacho. é o reino das emoções em directo,
o contrário mesmo do que deveria ser o bom jornalismo. o
'directo' não é a causa primeira, mas é o instrumento de
degradação da televisão. é, sobretudo, a destruição da
informação e da inteligência.»

[antónio barreto, in "público"].

releitura[s].


[francis fukuyama, "state-building"]. ***

já o tinha lido há alguns anos atrás, tendo então, inclusive,
escrito uma breve recensão crítica nas páginas do entretanto
defunto "o independente". por motivos académicos, acabo de o reler. a premência da temática mantém-se, com epicentro nas
capitais cabul e bagdad, onde o processo de reconstrução dos
respectivos estados-nação tem sido algo tão complexo quanto desastroso. o que não admira, tendo em consideração que os
norte-americanos resolveram aplicar os mesmíssimos métodos
de reconstrução que tinham aplicado, cerca de seis décadas
antes (e uma guerra fria pelo meio), numa berlim pós-segunda guerra mundial. pois a dissolução do exército iraquiano e o processo de desbaasificação terão sido os expoentes máximos deste desastre mais do que anunciado, com graves repercussões nas nossas vidas presentes & futuras. mas este livrinho de francis fukuyama ainda não faz um tal rescaldo, porque foi publicado numa fase ainda muito inicial (e se a administração norte-americana tivesse então prestado um mínimo de atenção
a esta obra, talvez se tivesse podido evitar a consumação do
desastre estratégico pós-guerra). não, o rescaldo, por este francis fukuyama, surge num seu livro mais recente, "america at the crossroads", esse sim um excelente livro, que eu até devorei numa só noite. um livro essencialmente político, ao contrário deste "state-building", muito mais técnico, e por isso mais desinteressante. para congelar numa prateleira...

menos que zero.


[bret easton ellis].

«in his 1985 breakout novel, 'less than zero', bret easton ellis, then all of 21 years old, created young, jaded los
angelenos
who just didn't care about anything: they recounted cocaine scores and semi-anonymous sex in the same tone with which they lamented their fading suntans. that ennui became ellis' literary signature, and as he began to grow up in public, he became known as a photogenic and glamorous
figure who liked booze and excess.

more than two decades later and almost four years after returning home to l.a., the city in which he grew up as the offspring of affluent goldwater republicans, ellis himself claims to be in a phase in which he just doesn't care about anything, middle-aged wrinkle on the old ellis ennui. 'the only thing i care about', he requested when setting up a dinner interview, 'is valet parking and a full bar'.»

[scott timberg, in "los angeles times"].

sadismo gratuito.


["funny games u.s.", 2007, michael haneke]. ***

atente-se na tagline do filme: «you must admit, you brought this on yourself.» pode ser apenas uma impressão minha, mas parece-me claramente uma metáfora relativa ao 11 de setembro, no sentido, demagógico, de que os verdadeiros culpados dos atentados terroristas terão sido as próprias vítimas, isto é, os norte-americanos, que até poderão ter sido, numa vertente ainda mais psicótico-conspiratória, os perpetradores desses mesmos atentados infligidos contra eles próprios, só para depois poderem intervir violenta-militarmente onde bem lhes apetecesse, algo perfeitamente ridículo e imbecil! pode ser apenas uma impressão minha, por isso deixo passar, sem lhe
aplicar a classificação mínima que tal raciocínio, faccioso
e reaccionário, me suscitaria perante qualquer filme...


["funny games", 1997, michael haneke].

superada esta desconfiança inicial, devo contudo escrever
que talvez seja, na minha modesta opinião, o filme menos
bem conseguido de michael haneke, que eu muito admiro
enquanto cineasta e pensador. não por acaso, trata-se
de um remake de um outro filme seu de 1997, homónimo,
produzido na alemanha. um remake fiel, replicando frame
a frame o filme original, apenas trocando a paisagem
austríaca por long island, nos states, e com actores
norte-americanos, evidentemente. claro que é bastante
interessante toda esta reflexão em torno da cultura
da violência, seguindo o raciocínio de que a violência
gera violência, sobretudo numa juventude cada vez mais
adormecida pelos videogames & afins hiper-violentos,
ou cada vez mais distantes da realidade, da condição
de humanos carnais, sensíveis à dor e ao sofrimento.

repito, claro que é bastante interessante toda esta tal
reflexão, mas o grande problema é que haneke acaba por
se repetir a si mesmo, como já tinha acontecido no filme
anterior, sobretudo devido à sua ânsia de chocar e de
impressionar as pessoas com violência crua, realista,
neste caso mais simbólica, menos exposta. e depois há
todo um tom de moralismo relativamente hipócrita, muito
na senda de lars von trier, por exemplo, sobretudo na
sua fixação pelos estados unidos da américa. claro que
há muita razão em tudo isto, mas, já não tenho tanta
paciência para assistir a lições de moral simplistas
que acabam por insultar a minha ténue inteligência.

[muito, muito distante da genialidade de "a clockwork
orange
", de anthony burgess, adaptado ao cinema pelo
mestre stanley kubrick; eu que, assim que vi aqueles
fatinhos brancos, imaculados, dos dois meninos, pensei
logo tratar-se da reencarnação dos fabulosos droogs].

Sábado, 3 de Maio de 2008

em experimentação.


[foals, "antidotes"]. **

a capa do disco é maravilhosa, a música contida não tanto assim; gosto das malhas instrumentais do tipo a certain ratio, detesto as tonalidades mais ao estilo d'uns klaxons que eu não consigo, de todo, digerir; a vocalização muito
à robert smith ora me irrita ora me cativa, dependendo dos arranjos sonoros; repito, a capa do disco é maravilhosa,
a música contida não tanto assim; mas talvez uma segunda audição me faça, ainda, mudar totalmente de ideias...

[no mesmo comprimento de onda, acho bem mais interessantes
os dfa'nianos shocking pinks, por mero & casual exemplo].

essencialíssimo.


[anselm jappe, "guy debord"].

«para alguns, 'a sociedade do espectáculo' continua a ser
uma bíblia a que se recorre em caso de dúvida. publicado
originalmente em 1967 em frança, de texto marginal passou
a obra de culto e referência, sobrevivendo ao tempo e ao
seu autor, guy debord (1931-1994). título que se converteu,
entretanto, em conceito banalizado, citado por publicitários
e comunicadores 'update', nele se expõe, contudo, a mais
radical das críticas à sociedade moderna, uma profecia de
cassandra que antecipa o actual modelo global e tecnológico, confrontando-nos com a nossa vulnerabilidade face a uma tal máquina avassaladora que se constitui como realidade única
e incontornável: 'o espectáculo é o sol que não tem poente, no império da passividade moderna. recobre toda a superfície do mundo e banha-se indefinitivamente, então, na sua própria glória'. e é precisamente pela análise das teses presentes nesse livro que se inicia 'guy debord', do ensaísta alemão anselm jappe, também autor d'as aventuras da mercadoria'

[ana cristina leonardo, in "actual"].

eterno retorno.


[pina bausch].

simbologia'68.

«os revolucionários veneram símbolos e multidões. a revolução
é uma mitologia, e a mitologia também consiste em adequar a
realidade a uma ideia. pensemos na tal caroline de bendern,
a 'marianne' do maio de 68. uma rapariga loura, de cabelo
curto, pescoço e feições esculturais, braço direito em volta
da cintura, casaquinho com botões, sentada aos ombros de um
homem que não vemos, agitando uma bandeira vietnamita. é a
mais memorável das raparigas de 1968, uma julie christie
da rue saint-antoine. uma mulher revolucionária é uma
coisa, mas uma mulher bonita é sempre outra coisa.


[caroline de bendern].

toda a gente já viu esta 'marianne', símbolo ainda vivo da
'revolução' (com aspas) de maio, herdeira da outra marianne,
símbolo decrépito da revolução (sem aspas) de julho. pois
a agitação de rua não chega: é preciso também o combate do
imaginário. os revolucionários de 1789 congeminaram então
uma beldade de maminhas soltas e barrete frígio, que se fez
virtude em estátua e propaganda universal. os revoltados de
1968, mais uma vez encabeçados por homens, também precisavam
do seu rosto feminino. e nenhum outro ficou na memória como
o de caroline de bendern. ela foi capa de revista em todo o
mundo, ainda hoje o mais belo poster da revolta parisiense.

curiosamente, caroline não passava de uma figurante naquela
comédia. não era francesa, nem estudante, nem trabalhadora,
nem especialmente politizada. e (não se choquem) fez pose.
em maio de 1968, caroline tinha 27 anos. inglesa, era neta
do conde de bendern, e uma neta problemática. andou por
várias escolas internas inglesas, de onde foi sendo expulsa,
depois mandaram-na para viena, onde se meteu na boémia,
e acabaram por lhe cortar a mesada. então foi para paris
e nova iorque, e trabalhou como modelo. caroline era uma
rapariga do seu tempo, e dizia aquelas coisas vagas contra
'a sociedade' e a favor da 'mudança'. à 'normandie magazine'
confessou numa entrevista em meados de 1997: 'estava-me
nas tintas para a política francesa, porque estava então
preocupada com a humanidade inteira'. nada mais inócuo
do que se estar preocupado com toda a humanidade.

como é que esta jovem mulher se torna a joana d'arc do maio
vermelho? ela ia no meio da multidão que marchava em direcção
à bastilha (os símbolos, os símbolos) e já lhe doíam os pés
(é o que ela conta). então alguém lhe pede que salte para os
ombros de um rapaz e segure uma bandeira. a boleia era bem
vinda. a questão da bandeira parecia mais complicada: 'não
queria nem a bandeira vermelha - por causa dos comunistas
que sabotavam o movimento - nem a bandeira negra, porque não
sabia nada dos anarquistas. mas a tal bandeira vietnamita
convinha-me como símbolo de uma guerra que toda a juventude
denunciava. de repente, sinto várias objectivas fixadas em
mim'. nada a que uma modelo não esteja habituada: 'então
tive como que um reflexo profissional. instintivamente,
endireitei-me, o meu rosto torna-se mais grave, os meus
gestos mais solenes. quis a todo o custo ser bela e dar
uma representação daquele movimento à altura do momento'.

se os namorados de doisneau, naquele famoso 'baiser de
l'hôtel de ville'
também estavam ensaiados, como é que uma
modelo ia fazer diferente? ela admite: 'no fundo, fiz pose.
e fui armadilhada por essa mesma pose. porque de repente
emocionei-me: esta multidão que se junta, justa, ardente,
luminosa, com todas aquelas bandeiras, e este símbolo tão
pesado na minha mão. torno-me exactamente no que tento
parecer. já não represento nenhum papel, estou mergulhada
no movimento e no instante, e consciente, eu que sou uma
aristocrata inglesa, de uma responsabilidade'. o avô conde,
como é próprio dos avós condes, não se comoveu nada com as
multidões ardentes: rasgou o testamento e disse à neta que
não lhe aparecesse mais à frente. caroline trocou então a
aristocracia do título pela aristocracia da celebridade,
e convenhamos que há 'armadilhas' mais graves. hoje, diz
que nunca se arrependeu do maio. quando muito, digo eu,
está arrependida de não ter pedido royalties'.»

[pedro mexia, in "público"].

f for fake [1950].


[robert doisneau, "baiser de l'hotel de ville"].

arcaísmo utópico.

«entre os arcaísmos do maio de 68, encontram-se o utopismo e o colectivismo, ambos de cariz profundamente autoritário. a ideia de mudar uma sociedade de alto a baixo para a fazer conformar a um plano ideal, a chamada utopia, ignora que as sociedades livres não podem ser desenhadas. ignora os limites do nosso conhecimento e a sabedoria, como diria burke, do conhecimento descentralizado, que se vai adaptando a novas situações através do ensaio e do erro. por outras palavras, como observou karl popper, a utopia é um arcaísmo típico das sociedades e mentalidades fechadas. em regra, gera a ilusão revolucionária e, o que é pior, a violência.»

[joão carlos espada, in "expresso"].

shakin' my ass!


[jamie lidell, "jim"]. ***

ignaros filisteus, montes de esterco, proxenetas ambulantes, não conhecem jamie lidell? é um tipo muito giro, repleto de pinta, com um ar simultaneamente clean e blasé-chic, sorriso maroto e olho azul de fazer suster a respiração, não sei se solteiro ou comprometido, músico de profissão, dono e senhor d'uma voz soul extraordinária, compincha criativo de matthew herbert, e que, em nome próprio, compõe-interpreta o que eu apelido de soul-shower, isto é, a banda sonora perfeita para um duche a dois, com beijos molhados à mistura e um daiquiri fresquinho na borda da banheira, como que um karaoke sensual e sexualizado de início de verão, quando os corpos se beijam com mais e maior luxúria, que delícia, que delícia de som, sobretudo "figured me out", fantástica, sexy-groovy, que não me saturo de acompanhar com os lábios em frente ao espelho, com gestos e tiques nitidamente homossexuais, ui, agora que reparo, estou com um rabinho tão jeitoso, e tão empinadote!

[não obstante toda esta minha assumida paneleirice, admito que gostei mais do seu disco anterior, "multiply", julgo que mais sóbrio e menos cabaret e mais consistente no seu todo].

le sacre du printemps.


[pina bausch - tanztheater wuppertal].

direitos & garantias.

«não pode haver qualquer margem para relativismos morais, legais, de decência ou sobre as boas práticas democráticas
em matérias como guantánamo. esta prisão americana, a forma
como os detidos lá foram parar e são tratados representam
um ponto onde os extremos se tocam. o país das liberdades
individuais, do hipergarantismo legal - onde, por exemplo,
as tabaqueiras pagam multas avultadas pelos danos causados
na saúde de cidadãos adultos, esclarecidos e que assumiram
o risco de fumar -, da democracia directa e referendária
levada quase ao extremo é, ao mesmo tempo, aquele que
copia dos regimes mais hediondos esta estranha forma
de lidar com a ameaça do terrorismo.»

[paulo ferreira, in "público"].

acidez & mordacidade.

«o presidente da república lamentou no discurso do '25 de
abril', um discurso que já foi solene e já foi importante,
o desinteresse da juventude pela política. a audiência
concordou. mas, sinceramente, o que esperam os políticos?
desde que se puseram aí a abraçar e a beijocar o povo e a
pedir um minutinho de televisão para se exibir, perderam
a inacessibilidade e a autoridade e, perdendo isso, não
lhes ficou muito. para começar, não são gente susceptível
de atrair ninguém. tirando mário soares, que é uma 'estrela'
natural, e até certo ponto marcelo rebelo de sousa, o resto,
mesmo no seu melhor, não passa de uma pequenina multidão
indistinta e mesquinha. há um ou outro videirinho, um ou
outro aventureiro, um ou outro louco - um grande homem ou
mulher não há. quem vai perder tempo com as mediocridades
que, só deus sabe porquê, nos pastoreiam hoje?»

[vasco pulido valente, in "público"].

homofobia & infidelidade.

«cerca de 70 por cento dos portugueses consideram 'erradas' as relações sexuais entre dois adultos do mesmo sexo. mesmo nas idades mais jovens, os números da desaprovação são muito altos. 'portugal ainda é um país homofóbico', comenta sofia aboim, uma das autoras do inquérito 'saúde e sexualidade', realizado pelo instituto de ciências sociais da universidade de lisboa. o mesmo estudo revela também que 12 por cento dos portugueses que estão casados há mais de cinco anos assumem
ser infiéis, mas há diferenças entre os sexos: nos homens
são 16,9 por cento os que dizem ter sido infiéis, enquanto
a proporção é de 7 por cento nas mulheres. as asssimetrias
de género são, aliás, recorrentes ao longo do estudo.»

[manchete do jornal "público"].

rust & blue.


[mark rothko, 1953].

Sexta-feira, 2 de Maio de 2008

efeméride: maio'68.

«maio, a 'divina surpresa' (segundo le goff) que ninguém antecipava na frança de 1968 que 'se aborrecia', como se escreveu num editorial que ficaria célebre; maio, a cidade das barricadas, da greve geral, dos slogans escritos não se sabe por quem, da revolta inspirada na crítica do quotidiano do movimento situacionista de guy debord e na afirmação da ideia de emancipação e de autonomia total dos indivíduos de cornelius castoriadis e do grupo 'socialismo ou barbárie', maio que deixou uma marca no tempo que proventura ultrapassa
um mês de festa e de revolta espontânea, encerrado no fim
do mês com a enorme manifestação a favor do velho general
de gaulle e a posterior e esmagadora vitória da direita
nas eleições legislativas antecipadas.»

[miguel gaspar, in "público"].

um filme falhado...


["tideland", 2005, terry gilliam]. **

não me levem a mal, porque eu até gosto muito deste senhor ex-monty python terry gilliam, distinto realizador, entre alguma outras preciosidades, do delirante, e inesquecível,
e tudo mais, "fear and loathing in las vegas" (1998), uma adaptação do livro homónimo de hunter s. thompson, o senhor gonzo, precursor do new journalism & afins alucinogénios. repito, não me levem a mal, mas é que este seu último filme não tem mesmo ponta por onde se lhe pegue, no mau sentido desta expressão-cliché, retirada d'um manual de banalidades para a actividade jornalística em piloto automático. enfim,
trata-se de um filme de tal modo descabido que eu nem sequer vou perder mais tempo a escrever sobre isto. pois nem mesmo
a presença de jeff bridges, um actor pelo qual eu nutro uma profunda fixação freudiana, consegue salvar a coisa. e só
não é um desastre total devido a uma boa ideia: a do mundo invertido, na senda de lewis carroll, mas que gilliam, muito estranhamente, desenvolve apenas ao de leve, quando tenderia a ser o elemento estrutural e estruturante deste tal filme,
também por isso, plenamente falhado. peço desculpa, mas é
a minha opinião. eu que até gosto muito de terry gilliam.

Quinta-feira, 1 de Maio de 2008

whitney's satellite.


[renzo piano].

«optimism is in the air once again at the whitney museum of
american art, which has just released a preliminary design
by the italian architect renzo piano for its newly proposed
satellite museum downtown. for more than twenty years the
whitney has been unveiling sunny expansion plans for its
marcel breuer home on madison avenue, only to have them
crash against the reality of neighborhood politics. with
its decision to build a second museum in the meatpacking
district, the whitney seems to have found its bearings.

mr. piano's project for a site on gansevoort street, west
of washington street, is a striking departure from the
ethereal glass creations that have made him a favorite of
the art-world cognoscenti. its bold chiseled form won't
appeal to those who prefer architecture to be unobtrusive.»

[in "the new york times"].

a ciência do cameo.


["the birds", 1963, alfred hitchcock].

confesso que adoro deparar-me com um cameo no decurso de um
filme, sobretudo por um dos meus realizadores mais especiais,
mais preferidos. não por acaso, alfred hitchcock, o mestre,
usa e abusa do expediente em apreço. mas sempre com uma tal subtileza que, a maior parte das vezes, não evito ficar de boca aberta, absolutamente deliciado! já o vi a passear dois fox terrier de trela, sentado numa cadeira de rodas ou até
a entrar num autocarro... é muito raro o filme de hitchcock
em que o próprio não faça mais uma breve, mas tão especial,
aparição. dois ou três segundos de ilusão que nunca escapam
ao olho clínico dos seus mais convictos admiradores, ainda
que passando comummente despercebidos aos meros restantes.

um cameo é uma espécie de recurso estilístico, ou uma marca
distintiva, ou uma assinatura discreta. tal como um escritor
pode utilizar uma hipérbole ou uma metáfora numa frase, um
realizador pode utilizar um cameo num plano. e pode fazê-lo
de diversas maneiras. pois se hitchcock, o mestre, opta pelo
minimalismo, nunca superando o pormenor, outros, não menos
especiais, como martin scorsese, ousam ir mais longe. na sua
obra-prima absoluta "taxi driver" (1976), por exemplo, é o próprio marty que encarna a personagem do marido traído que, no escuro interior do táxi de travis bickle, surge a clamar por vingança. uma cena com dois ou três minutos de duração, incluindo monólogo e tudo mais, que, ao contrário do modelo
hitchcockiano, não prima de todo pelo secretismo da coisa.


[martin scorsese & robert de niro].

enquanto fã obsessivo do senhor marty, sei que ele encarnou aquela personagem porque o actor que seria suposto fazê-lo desistiu em cima da hora e, tendo em conta que o orçamento era muito curto, e o tempo de filmagem já escasseava, foi o
próprio realizador que, como se costuma dizer, teve que dar
o corpo ao manifesto. noutras circunstâncias, scorsese optou pela fórmula mais minimal. como em "after hours" (1985), um dos seus filmes mais subvalorizados, no qual aparece durante dois segundos, a segurar um holofote em pleno club berlin,
como que iluminando a fuga de paul hackett a um corte de
cabelo estilo mohawk. poucos reparam nesta preciosidade.

depois há manoj night shyamalan, um realizador hitchcockiano
por excelência, mas que utiliza, sem pudor, um modelo muito
mais maximalista. a homenagem ao velho mestre é por demais evidente, e nem era preciso um cameo para o confirmar, pois todo o cinema de shyamalan é citação óbvia de hitchcock, com mais uns quantos pózinhos de steven spielberg, tudo tão bem misturado, pronto-a-consumir. não se trata de só cameo, mas
vários, sucessivos: no bêdéfilo "unbreakable" (2000) encarna
o tipo que é revistado por david dunn no estádio; no muito religioso "signs" (2002) é o vizinho envolvido no acidente rodoviário que vitimou a esposa do senhor reverendo; e no metafórico "the village" (2004) é o guarda florestal que fecha os olhos ao roubo providencial dos medicamentos.


[manoj night shyamalan].

aparições mais ou menos breves, e mais ou menos discretas,
embora nada que se compare com o abuso d'um recente falhanço
sob o título "lady in the water" (2006), no qual shyamalan representa, de forma sofrível, uma personagem secundária, ao longo de todo o filme. claro que não é inédito, basta pensar em woody allen. mas enquanto o actor allen representa uma certa mais-valia nos filmes do realizador allen, o figurante shyamalan só serve então para estragar o filme do realizador shyamalan. ainda hoje não se sabe o que é que terá passado pela cabeça do mago de filadélfia. a disputa pessoal com os estúdios disney afundou-o na mais pura insanidade mental? ou
então, versão mais cínica, não é hitchcock, scorsese ou allen
quem quer, apenas e somente quem sabe. isto é, os próprios.

a traição das imagens.





marcel duchamp pega num urinol, assina-o e apresenta-o
como uma obra de arte, não como o tal produto industrial, estandardizado, que aparenta ser, enquanto objecto banal
do quotidiano das pessoas. rené magritte, por sua vez, num sentido mais ilusório do que conceptual, representa então
um cachimbo com uma legenda paradoxal: "ceci n'est pas une pipe". e, seguindo a mesma linha criativa, figura um pintor
a imaginar um pássaro, enquanto observa um ovo imaculado. estamos perante o paradigma d'a traição das imagens (para
além da pintura de magritte, atente-se no cinema do mestre michelangelo antonioni e o seu "blow-up", 1966), expressão cunhada pelo próprio magritte, na senda do ready-made de duchamp. enfim, para melhor compreender o tempo presente, contemporâneo, pós-moderno, há que considerar estas duas concepções artísticas, que, no fundo, se complementam.

Quarta-feira, 30 de Abril de 2008

as prelecções de haneke.


["caché", 2005, michael haneke]. ****


filme-choque escrito e realizado pelo filósofo, psicólogo e cineasta austríaco michael haneke e interpretado por daniel auteuil, juliette binoche, maurice bénichou, annie girardot, bernard le coq, walid afkir, lester makedonsky, daniel duval, nathalie richard, denis podalydès, entre vários outros...

plano subjectivo: diz-se nos manuais de cinema que o plano subjectivo é, ironicamente, o mais objectivo de todos os planos, uma vez que corresponde então ao olhar directo da personagem, e/ou do realizador, e/ou do próprio espectador.
isto é, a concretização técnico-formal do cine-olho de dziga vertov, como que em busca da verdade através das imagens. ora, no perturbante "caché" (2005), haneke dedica-se pois
a manipular as imagens, iludindo, desiludindo e voltando a
iludir, ao ponto de nos sentirmos enganados, logrados, sem saber o que estamos realmente a ver. plano subjectivo, sim, de facto, mas correspondente à visão de quem, afinal? mais,
tratam-se de imagens em directo, ainda cruas, ou gravadas,
entretanto montadas? reside aqui a essência deste filme.



indução imagética: estamos perante uma interessante reflexão
em torno da comunicação audiovisual (a cassete substitui a carta), da linguagem televisiva (o pequeno ecrã é pois uma presença constante) e da representação do real (afirmação da profunda complexidade do subjectivismo). mais, ao passo que
o subliminal "blow-up" (1966), de michelangelo antonioni, tocou apenas ao de leve nesta matéria e sob uma abordagem essencialmente estética, haneke escavou bastante mais fundo
à procura da raiz da questão. ver para crer? nem sempre,
porque as imagens, por vezes, enganam. muita atenção em
relação à desconstrução, à perspectivação e tudo mais.

passado colonial: em termos de significação política e/ou social, para além de uma óbvia componente voyeurista, com carregados contornos kafkianos, haneke produz uma notável recensão sobre um tema pleno de urgência e actualidade: o terrorismo. mediante o contexto francês do filme, cuja acção se desenrola em paris, utiliza para tal os "fantasmas" do passado colonial-imperialista da nação gaulesa, nomeadamente os relativos à argélia. é um tiro certeiro que resulta na oposição entre colonizador e colonizado, rico e pobre, patrão
e funcionário. indo mais longe e mais fundo, entre cristão,
ou ateu, ou agnóstico, ou, enfim, "infiel", e muçulmano.

lógica terrorista: por outro lado, utilizando o microcosmos afectivo de um casal com um filho pequeno, desmonta a lógica terrorista com uma destreza muito impressionante: a ameaça exterior, baseada no poder de intrusão e portanto causadora
da sensação de impotência, mina a confiança entre o casal, expondo mentiras e omissões, por sua vez extrapoladas por enraizadas dificuldades de comunicação. ou seja, não ocorre uma explosão, mas uma implosão. a vitória do terrorista deriva da perda de confiança no seio do casal, no interior, discussão após discussão, não tanto da imagem que faz passar para o exterior, entre os amigos e nos próprios empregos.

[quanto ao enigma central do filme, aparentemente insolúvel,
poderá ser decifrado no discurso directo de haneke: «films
that are entertainments give simple answers but i think
that's ultimately more cynical, as it denies the viewer
room to think. if there are more answers at the end,
then surely it is a richer experience.
»].

a fraqueza do estado.

«a falta de capacidade do estado em países pobres tem vindo
a importunar o mundo desenvolvido de modo directo. o fim da
guerra fria como que gerou uma faixa de estados fracassados
e fracos, alargando-se desde os balcãs até ao cáucaso, ao
médio oriente e às regiões centro e sul da ásia. a fraqueza
ou colapso do estado tinha já provocado grandes desastres
humanitários e de direitos humanos durante os anos 90 na
somália, haiti, camboja, bósnia, kosovo e timor. durante
algum tempo, os estados unidos como outros países puderam
fingir que se tratava apenas e só de problemas locais, mas
o 11 de setembro provou que a fraqueza do estado é também



um imenso desafio estratégico. o terrorismo islâmico mais
radical, combinado com a tal disponibilidade de armas de
destruição maciça, veio pois acrescentar uma dimensão de
segurança muito importante, de facto, ao já muito pesado
fardo de problemas criados pela governação fraca. ora os
estados unidos assumiram novas responsabilidades ao nível
da construção de nações, no afeganistão e no iraque, na
sequência das acções militares realizadas nesses países.
subitamente, o poder de reforçar ou criar a partir do zero
capacidades e instituições do estado em falta ascendeu ao
topo das prioridades mundiais e tudo indica que venha a ser
uma condição fundamental para a segurança de grande parte
do mundo. a fraqueza do estado é, portanto, uma questão de
primeira ordem, quer a nível nacional quer internacional.»

[francis fukuyama, "state-building"].

filme da treta.



"brick" (2005), rian johnson. *

Terça-feira, 29 de Abril de 2008

cine-revolução.

«at least according to legend, the 'events of may' - the
strikes and disturbances that convulsed france in the spring
of 1968 - began at the movies. on february 9 henri langlois,
president of the national cinémathèque française in paris
and a shambling, revered godfather of the french new wave,
was removed from his post by andré malraux, the minister of
culture in charles de gaulle's government. young cinephiles
reacted with outrage, and their angry protests flowed into
a tide of political and social discontent that quickly
reached the flood stage.


[henri langlois].

three months later the country was engulfed in riots,
work stoppages and mass demonstrations. some of france's
most venerable traditions and institutions seemed to be
under assault, and the cannes film festival, the nation's
glamorous and exalted cinematic rite of spring, was hardly
immune. the festival came to a halt on may 19, after a
group of filmmakers, including jean-luc godard and françois
truffaut, professing solidarity with insurgent students
and workers, rushed the stage at the palais des festivals
and held down the curtain, preventing the scheduled
screening from taking place.»

[a.o. scott, in "the new york times"].

Segunda-feira, 28 de Abril de 2008

playlist.

[#1]
damon albarn, dezert
damon albarn, i need a gun
damon albarn, sub species of an american day
hot chip, shining escalade
andré herman düne, smalltown boy
caribou, bees
the lions, jungle struttin'
the lions, think (about it)
sa-ra creative partners, glorious
public enemy, between hard and a rock place
public enemy, head wide shut
dj shadow, mutual slump
the soft machine, priscilla
the brooks, red tape
animal collective, leaf house
soap & skin, spiracle
tom waits, russian dance

[#2]
shit robot, lonely planet
human league, seconds
the emperor machine, how to build a super computer
cristian vogel, somewhere in the waves
soylent green, cold showers
simon baker, jitters
supermax, lovemachine 1
zombie zombie, driving this road until death sets you free

[http://origamiruc.blogspot.com].

Domingo, 27 de Abril de 2008

onirismo visual.


[paul klee, "red balloon", 1922].

Sábado, 26 de Abril de 2008

ficção meta-científica.

passe a generalização abusiva, há como que uma temática comum
a quase toda a ficção científica que se escreve por todo este
mundo fora, ou dentro, ou 'in between': a distopia sobre um
admirável mundo novo onde as máquinas se tornam inteligentes
e autónomas relativamente aos humanos, acabando por assumir
o poder, subjugando ou até aniquilando a espécie animal que
as tinha criado, e escravizado. trata-se, no fundo, de uma
expiação do medo humano perante o desenvolvimento científico
e tecnológico, com epicentro na evolução das máquinas que,
muito ironicamente, se tornam cada vez mais humanas, logo
cada vez mais perigosas e ameaçadoras para a humanidade,
como que ciente da sua natureza hobbesiana, predatória.

na semana em que a obra-prima "blade runner" (1982), de
ridley scott, é reposta nas salas de cinema, numa das suas
já inumeráveis versões mais ou menos adulteradas, mais ou
menos recauchutadas a partir do original, importa revisitar
o extraordinário conto de ficção científica, da autoria do
mestre visionário philip k. dick, intitulado "do androids
dream of electric sheep?
", cuja adaptação cinematográfica
resultou no filme, subliminal, de ridley scott. não é por
mero acaso, de todo, que o replicant mais desenvolvido,
mais inteligente, ou, sob uma perspectiva intrinsecamente
darwinista, mais adaptável, acaba por matar o seu próprio
criador humano. é a catarse do tal receio que eu referi
anteriormente, repetida ad infinitum em tantos outros
contos, e filmes, e tudo mais de ficção científica.



há um duplo sentido em tudo isto: por um lado o medo dos
humanos relativamente à sua superação pelas máquinas, por
outro lado a crítica à própria natureza humana: hobbesiana,
predatória, auto-destrutiva, numa fusão incomensurável de
latências freudianas e predominâncias darwinistas. não vou
desenvolver este segundo sentido, porque me levaria horas,
talvez dias, cingindo-me portanto ao primeiro, que é o que
mais me interessa neste impreciso momento casual. e mesmo
no que respeita ao primeiro, vou abordar sobretudo uma sua
derivação, não o essencial da coisa. isto é, no contexto
da superação do homem por intermédio das máquinas, centrar
o meu pensamento no processo de metamorfose das máquinas,
como que um processo de humanização, como que a busca por
sentimentos, sensações, sonhos. pois, no fundo, a questão
colocada por philip k. dick remete para esta metamorfose,
esta transformação das máquinas em humanos sensíveis.

mais coisa menos coisa, há seis anos que eu trabalho numa
história de ficção científica que se desenvolve em torno
destes mesmos paradigmas de pensamento. já cheguei a ter
mais de 400 páginas de texto, mas, após sucessivas e quão
obsessivas revisões, a empreitada queda-se presentemente
pelas 200 e tal páginas de banalidade verbal. falta-me
ali qualquer coisa, julgo que uma componente mais visual,
mais gráfica, pelo que já pensei em adaptar aquilo a uma
obra de banda desenhada, mas ainda não encontrei a pessoa
certa para desenhar a minhas distopia caótica, ou quase
que apocalíptica. com uma nuance essencial: da metamorfose
das máquinas para a metamorfose dos humanos, isto é, não
a transformação das máquinas em humanos, mas a inversa
transformação dos humanos em máquinas perfeccionistas.

ao observar esta sociedade contemporânea, deparo-me com
muitos sinais que apontam neste sentido de aperfeiçoamento
humano: da crescente intolerância face ao defeito físico
até à utopia da eterna juventude, passando naturalmente
por esse grande projecto da humanidade que é a conquista
da sua imortalidade, imune à doença e ao lado fortuito
da existência material. o sinal mais evidente consiste
na manipulação genética, com os humanos a quererem então
assumir o papel que, até então, tinham conferido a deus,
como que desiludidos com a gestão empresarial divina.

atente-se pois na obra-prima "gattaca" (1997), do senhor
andrew niccol, um dos filmes mais inteligentes das últimas
décadas. está lá tudo disposto, prenunciado, como só os
grandes visionários conseguem dispor, prenunciar. ou então
remetamo-nos aos expoentes clássicos, especialmente rené
descartes, com a sua teorização mecanicista, o paradigma
do homem-máquina, subproduto do seu "mundo cartesiano",
súmula metafísica do positivismo de auguste comte. para
descartes, os corpos vivos, todos eles, são máquinas cujo
movimento provém da disposição interna dos seus membros.
e, tal como um mecanismo funciona correctamente quando
todas as peças que o compõem executam a tarefa para que
foram projectadas, a vida dos corpos motores é afinal
a consequência do funcionamento mecânico dos órgãos.



além de comparar os corpos vivos a máquinas, descartes
utiliza de forma recorrente a imagem dos autómatos. sob
a sua perspectiva anti-espiritual, um corpo vivo ou um
corpo morto diferem um do outro tal como um autómato ou
um relógio que contém todas as suas peças e funciona se
distingue de outro idêntico que deixou de funcionar, ou
seja, a consideração do corpo como uma substância apenas
material, regulada unicamente por princípios mecânicos.
leio e releio estes pensadores, em prol da minha grande
empreitada, mas ainda não consegui amadurecer as minhas
ideias a um nível satisfatório, prático, consequente.

[a desenvolver...].

sobre-expectativa!



"synecdoche, new york" (2008), charlie kaufman.

achtung! aquele que eu considero ser o melhor argumentista,
com menos de meio século de idade, presentemente em franca
actividade, charlie kaufman, aventura-se pela primeiríssima
vez na arte da realização cinematográfica, com esta muito
aguardada longa-metragem que será apresentada já na próxima
edição do festival de cannes, incluída na lista de filmes
em competição. realização e argumento, obviamente, do senhor
kaufman, e um elenco razoável com philip seymour hoffman,
michelle williams, emily watson, catherine keener, jennifer
jason leigh, samantha morton, entre muitos outros, sobretudo
outras (repare-se que no cast figuram muito mais actrizes
do que actores). para quem esteve em coma durante a última
década e ainda não reparou nos guiões geniais de kaufman,
de modo a não morrer de vergonha no decurso de uma conversa
com um qualquer cinéfilo à séria, eis a lista dos cinco magníficos, absolutamente a não perder de vista...

"being john malkovich" (1999),
spike jonze. *****

"human nature" (2001),
michel gondry. ****

"adaptation" (2002),
spike jonze. ****

"confessions of a dangerous mind" (2002),
george clooney. ****

"eternal sunshine of the spotless mind" (2004),
michel gondry. *****

la croisette.


[http://www.festival-cannes.fr].

lista dos filmes em competição:
"24 city", jia zhangke.
"adoration", atom egoyan.
"che", steven soderbergh.
"changeling", clint eastwood.
"delta", kornel mundruczo.
"la frontière se l'aube", philippe garrel.
"gomorra", matteo garrone.
"il divo", paolo sorrentino.
"leonera", pablo trapero.
"linha de passe", daniela thomas & walter salles.
"my magic", eric khoo.
"la mujer sin cabeza", lucrecia martel.
"the palermo shooting", wim wenders.
"serbis", brillante mendonza.
"le silence de lorna", jean-pierre & luc dardenne.
"synecdoche, new york", charlie kaufman.
"three monkeys", nuri bilge ceylan.
"un conte de noël", arnaud desplechin.
"waltz with bashir", ari folman.

lucrecia martel [x3].


["la ciénaga", 2001]. ****


["la niña santa", 2004]. ***

caros casuais, lucrecia martel é uma jovem realizadora de
cinema, originária da argentina, apadrinhada pela el deseo
de pedro & agustín almodóvar, já com duas longas-metragens
estreadas e uma terceira, "la mujer sin cabeza" (2008), que estará prestes a ser apresentada à crítica no âmbito de mais uma edição do tão mirífico festival de cannes, que decorrerá entre os dias 14 e 25 de maio. sim, gostei muito do primeiro filme, ainda estou a digerir o segundo, e a expectativa em relação ao terceiro é imensa, pois tenho o pressentimento de
que poderemos estar perante uma extraordinária cineasta em ascensão, proveninente do circuito indie, a partir d'um país francamente periférico ao nível da produção cinematográfica, distinta autora de uma linguagem visual muito interessante,
e cativante, bebendo uma grande parte da sua inspiração nas suas referências mais directas e evidentes: pedro almodóvar
e luis buñuel. será como que a prova de fogo para a jovem argentina, em competição com colossos da estatura de clint eastwood, steven soderbergh, wim wenders e, já numa segunda linha de reputação e consequente favoritismo, atom egoyan, arnaud desplechin, jean-pierre & luc dardenne, entre outros, perante o júri presidido por sean penn. dava o dedo mindinho do meu pé direito à santa casa da misericórdia só para poder estar presente no certame deste ano, o qual se me afigura tremendamente interessante, com bons filmes a concurso...

leituras solarengas.


[http://www.acnepaper.com].

sobre a ignorância.

«os jovens sabem pouco sobre o 25 de abril. sabem pouco
sobre a actualidade política. como sabem pouco sobre
história portuguesa, contemporânea ou antiga. como
infelizmente sabem pouco sobre muitos outros temas.

mas não só os jovens. se o nível de ignorância sobre as respostas correctas às três questões colocadas no inquérito encomendado pela presidência da república foi maior nas faixas etárias mais baixas, não deixou de ser anormalmente elevada considerando o conjunto da população. um terço dos inquiridos não souberam responder à questão mais simples, isto é, não sabiam que o ps governa com o apoio de uma maioria absoluta de deputados. apesar de a percentagem de ignorância descer entre os que têm mais de 30 anos, mesmo assim situou-se sempre acima dos 30 por cento.

ora isto não se ensina nas escolas. aprende-se, ou sabe-se com naturalidade, ao se estar interessado na vida cívica,
e também na vida política. portugal apresenta um dos menores índices de interesse pela política de toda a europa, e aí
o conjunto da população não fica mais bem representado do
que os jovens, pelo contrário.»

[josé manuel fernandes, in "público"].

Sexta-feira, 25 de Abril de 2008

235 bowery, new york city.


[http://www.newmuseum.org].

«the new museum of contemporary art, designed by tokyo-based
architects kazuyo sejima and ryue nishizawa (sanaa) with
gensler, new york, serving as executive architect, is a
seven-story, structure located at 235 bowery between stanton
and rivington streets, at the origin of prince street in new
york city. the first art museum ever constructed from the
ground up in downtown manhattan, the new museum will open
to the public on december 1, 2007, coinciding with the
institution's 30th anniversary.

the new museum building is a home for contemporary art and
an incubator for new ideas, as well as an architectural
contribution to new york's urban landscape. sejima and
nishizawa, who received the commission in 2002, have
described the building as their response to the history
and powerful personalities of both the new museum and its
storied site. 'the