passe a generalização abusiva, há como que uma temática comum
a quase toda a ficção científica que se escreve por todo este
mundo fora, ou dentro, ou 'in between': a distopia sobre um
admirável mundo novo onde as máquinas se tornam inteligentes
e autónomas relativamente aos humanos, acabando por assumir
o poder, subjugando ou até aniquilando a espécie animal que
as tinha criado, e escravizado. trata-se, no fundo, de uma
expiação do medo humano perante o desenvolvimento científico
e tecnológico, com epicentro na evolução das máquinas que,
muito ironicamente, se tornam cada vez mais humanas, logo
cada vez mais perigosas e ameaçadoras para a humanidade,
como que ciente da sua natureza hobbesiana, predatória.
na semana em que a obra-prima "blade runner" (1982), de
ridley scott, é reposta nas salas de cinema, numa das suas
já inumeráveis versões mais ou menos adulteradas, mais ou
menos recauchutadas a partir do original, importa revisitar
o extraordinário conto de ficção científica, da autoria do
mestre visionário philip k. dick, intitulado "do androids
dream of electric sheep?", cuja adaptação cinematográfica
resultou no filme, subliminal, de ridley scott. não é por
mero acaso, de todo, que o replicant mais desenvolvido,
mais inteligente, ou, sob uma perspectiva intrinsecamente
darwinista, mais adaptável, acaba por matar o seu próprio
criador humano. é a catarse do tal receio que eu referi
anteriormente, repetida ad infinitum em tantos outros
contos, e filmes, e tudo mais de ficção científica.

há um duplo sentido em tudo isto: por um lado o medo dos
humanos relativamente à sua superação pelas máquinas, por
outro lado a crítica à própria natureza humana: hobbesiana,
predatória, auto-destrutiva, numa fusão incomensurável de
latências freudianas e predominâncias darwinistas. não vou
desenvolver este segundo sentido, porque me levaria horas,
talvez dias, cingindo-me portanto ao primeiro, que é o que
mais me interessa neste impreciso momento casual. e mesmo
no que respeita ao primeiro, vou abordar sobretudo uma sua
derivação, não o essencial da coisa. isto é, no contexto
da superação do homem por intermédio das máquinas, centrar
o meu pensamento no processo de metamorfose das máquinas,
como que um processo de humanização, como que a busca por
sentimentos, sensações, sonhos. pois, no fundo, a questão
colocada por philip k. dick remete para esta metamorfose,
esta transformação das máquinas em humanos sensíveis.
mais coisa menos coisa, há seis anos que eu trabalho numa
história de ficção científica que se desenvolve em torno
destes mesmos paradigmas de pensamento. já cheguei a ter
mais de 400 páginas de texto, mas, após sucessivas e quão
obsessivas revisões, a empreitada queda-se presentemente
pelas 200 e tal páginas de banalidade verbal. falta-me
ali qualquer coisa, julgo que uma componente mais visual,
mais gráfica, pelo que já pensei em adaptar aquilo a uma
obra de banda desenhada, mas ainda não encontrei a pessoa
certa para desenhar a minhas distopia caótica, ou quase
que apocalíptica. com uma nuance essencial: da metamorfose
das máquinas para a metamorfose dos humanos, isto é, não
a transformação das máquinas em humanos, mas a inversa
transformação dos humanos em máquinas perfeccionistas.
ao observar esta sociedade contemporânea, deparo-me com
muitos sinais que apontam neste sentido de aperfeiçoamento
humano: da crescente intolerância face ao defeito físico
até à utopia da eterna juventude, passando naturalmente
por esse grande projecto da humanidade que é a conquista
da sua imortalidade, imune à doença e ao lado fortuito
da existência material. o sinal mais evidente consiste
na manipulação genética, com os humanos a quererem então
assumir o papel que, até então, tinham conferido a deus,
como que desiludidos com a gestão empresarial divina.
atente-se pois na obra-prima "gattaca" (1997), do senhor
andrew niccol, um dos filmes mais inteligentes das últimas
décadas. está lá tudo disposto, prenunciado, como só os
grandes visionários conseguem dispor, prenunciar. ou então
remetamo-nos aos expoentes clássicos, especialmente rené
descartes, com a sua teorização mecanicista, o paradigma
do homem-máquina, subproduto do seu "mundo cartesiano",
súmula metafísica do positivismo de auguste comte. para
descartes, os corpos vivos, todos eles, são máquinas cujo
movimento provém da disposição interna dos seus membros.
e, tal como um mecanismo funciona correctamente quando
todas as peças que o compõem executam a tarefa para que
foram projectadas, a vida dos corpos motores é afinal
a consequência do funcionamento mecânico dos órgãos.

além de comparar os corpos vivos a máquinas, descartes
utiliza de forma recorrente a imagem dos autómatos. sob
a sua perspectiva anti-espiritual, um corpo vivo ou um
corpo morto diferem um do outro tal como um autómato ou
um relógio que contém todas as suas peças e funciona se
distingue de outro idêntico que deixou de funcionar, ou
seja, a consideração do corpo como uma substância apenas
material, regulada unicamente por princípios mecânicos.
leio e releio estes pensadores, em prol da minha grande
empreitada, mas ainda não consegui amadurecer as minhas
ideias a um nível satisfatório, prático, consequente.
[a desenvolver...].